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Diario de Pernambuco - PE 19/04/2010 - 10:49 |
Performances atléticas na dança contemporânea
Companhia italiana Kataklò impressionou ao apresentar colagem com 20 coreografias relacionadas aos esportes olímpicos em Play
Pollyanna Diniz
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No Brasil, o futebol é considerado arte. Para a companhia italiana Kataklò, que se apresentou na última sexta-feira, no Teatro da UFPE, todo esporte pode ser encarado sob um viés artístico. No espetáculo Play, cada modalidade esportiva serve como mote para 20 pequenos quadros coreográficos que compõem a montagem. Não há nenhuma relação narrativa entre eles, além do fato de cada um deles ser dedicado a um ou mais esportes. Há por exemplo, a tenista, o jogador de futebol, o boxeador, a ginasta olímpica. O invólucro para essas manifestações não é, entretanto, o esporte em si, mas a dança contemporânea.
A união entre esporte e dança vem da própria fundação da companhia, em 1995. A coreógrafa e diretora do grupo, Giullia Stacciolo era campeã olímpica de ginástica rítmica e o marido, Andrea Zorbi, jogador de vôlei, três vezes campeão europeu e duas vezes campeão do mundo. Quando encerrou a carreira de esportista, Giullia morou em Nova York, estudou no Alvin Ailey Studios, integrou o Momix por três anos, antes de decidir fundar a sua própria companhia. O grupo ganhou status e reconhecimento depois de se apresentar em 2000, na abertura dos Jogos Olímpicos de Sidney. No repertório, já são oito espetáculos.
Especificamente em Play, o trabalho da Kataklò é bonito, bem executado, correto tecnicamente. O problema é que, a relação entre a dança e o esporte, está ali colocada apenas na plasticidade dos movimentos. Em muitos quadros, falta a vivacidade da arte, a relação construída entre os corpos que dançam e, consequentemente, da coreografia com o público. É como se (para citar exemplos que já passaram pelo Recife), a companhia perdesse de 10 x 0 em vigor, sincronia (vida, mesmo!) para Deborah Colker, e em beleza, plástica e encantamento, para o Cirque du Soleil. O placar é esse porque a competição (não dá nem para considerar uma competição) não é com o Momix, que esteve por aqui no Teatro Guararapes anos atrás, e inspira a companhia em pelo menos duas cenas.
Não dá para dizerque essas cenas não sejam boas. Mas perdem impacto quando se conhece a inspiração. Uma delas transforma as cordas do ringue de boxeadores em várias formas animadas. Funciona, chama atenção, é engraçada. O humor, aliás, é um dos trunfos do espetáculo. Numa das melhores cenas, um atleta vai arremessar um peso, mas logo se descobre que aquele peso é, na realidade, a cabeça de um dançarino.
Em outros quadros, resta a impressão de que o grupo deveria se dedicar mais à dança contemporânea mesmo. Como no número em que os dançarinos participam de uma corrida. Delicado ver como uma corrida pode ser transformada em arte; ou na luta de esgrima, quando, finalmente os dançarinos interagem um pouco entre si; ou ainda no arremesso de varas. Os movimentos do grupo também não são privilegiados pela iluminação, que poderia ser muito melhor trabalhada. São luzes estáticas que pouco contribuem para a cena, ao contrário da música, que nos faz recordar diversas vezes as relações entre o esporte e os sons da natureza.
No público,ficou a curiosidade para conferir outros espetáculos do grupo, especialmente aqueles em que o esporte seja lembrado apenas pelas possibilidades inesgotáveis de corpos treinados para serem atletas. Em que haja uma narrativa completa e a dança contemporânea esteja em primeiro plano. Afinal, já deu para perceber que, se o esporte confere limites (de certa forma, aprisiona) por conta das competições técnicas, a dança tem o poder de libertar o movimento. |