‘Intelectual’ é a palavra mais comumente associada a Jomard Muniz de Britto (JMB), um jovem senhor que agita a comunidade cultural pernambucana com a mesma perspicácia e agudeza que fazia há mais de 50 anos. Hoje, aos 70 anos, a sua produção audiovisual - que é um entre vários de seus tentáculos na expressão artística (poesia, literatura, dramaturgia) - volta a chamar atenção graças a Ricardo Maia, mestrando em comunicação pela UFPE. Há exatos 14 dias, o estudante disponibilizou no website “YouTube” dez filmes realizados por Jomard dando uma visibilidade inédita e irrestrita à obra desse eterno irrequieto pop-filosófico.
“Conheci Jomard ainda na minha graduação e em 2006 trabalhamos juntos no nosso grupo musical, Comuna, cujo álbum intitulado ‘JMB em Comuna’ pode ser baixado no nosso blog:
http://comunablog.blogspot.com”, comenta Ricardo. No mesmo site é oferecido vídeoclips feitos pelo estudante com colagens dos filmes de Jomard. O objeto de pesquisa da sua dissertação foca exatamente a obra audiovisual do realizador, “sempre transgredindo, quebrando tabus e provocando”, explica o jornalista.
Ao receber a reportagem da Folha em seu apartamento no bairro da Boa Vista para comentar a novidade, Jomard, em poucos minutos de conversa, mostra porque é correta a correlação de sua pessoa à palavra ‘intelectual’. Vigiado por Corisco, no cartaz de “Deus e O Diabo na Terra do Sol”, embelezado por dezenas de fotografias e pinturas, e cercado por uma colossal e invejável biblioteca, JMB destaca que “a grande utopia do Tropicalismo, que era a liberação geral, foi realizada pela Internet. É a cultura democratizada”. Mesmo sem ser, ele mesmo, um navegador digital, o poeta brinca com este início da redescoberta de seus filmes via YouTube: “Por agora devo ser mais importante que a Cicarelli”.
Entre os dez filmes dispostos no site - dos mais de 30 com a grife JMB, feitos a maioria no formato Super-8 - está o já clássico e polêmico “O Palhaço Degolado” (1976). Ali, como diz o próprio autor, na Casa da Cultura, “o palhaço-deseducador (o próprio Jomard) discursa sobre grandes mestres - de Gilberto Freyre a Paulo Freire”, e “o movimento Armorial recebe satírica homenagem, além de outras expressões culturalistas”.
De uma forma generalizada, o artista explica que sua atuação nos filmes sempre foi mais ideativa. “Foi (Antônio) Cadengue quem primeiro disse que minhas filmagens eram performáticas. Houveram três homens fundamentais na minha vida cinematográfica: Carlos Cordeiro, Rucker Vieira e Lima. Eram eles que pensavam e davam as soluções para a fotografia nos filmes. Lima, inclusive, montava e sonorizava. Foi uma figura essencial no período superoitista pernambucano”, ressalta.
Apesar de deixar marcas profundas no cenário audiovisual (e literário, e poético, e teatral, e filosófico) do Brasil, JMB se diz um amador. “Amador, como um contra-burguês, tal diz Roland Barthes; e um amador, como um incompetente, tal diz o senso comum”, explica. “Comungo a anti-ambição de ser um cineasta profissional. Minha única atuação profissional foi lecionar”, diz o ex-professor da UFPE e UFPB.
Foi, inclusive, a partir da observação de sua colega, a professora Astrogilda de Carvalho Paes de Andrade, no princípio dos anos 1970, que Jomard piscou para a tentação de fazer filmes. “Eu mostrava em minhas aulas uma montagem de slides com um pout-pourri musical de fundo, quando ela disse que aquilo parecia um filme de (Jean-Luc) Godard”. Daí a realizar as primeira experimentações em 1974 com o grupo olindense Vivenciar - “a mais intensa atividade tropicalista em Pernambuco” - foi um pulo.
Agora, com os filmes na Internet, esse e outros universo co-pensados por Jomard podem ser revisitados e relidos com a perspectiva “pós-tudo” de hoje, como diz o intelectual. O endereço para acessar o domínios de Jomar na internet são (
www.youtube.com/profile?user=Fragmentes) e (
www.myspace.com/jomardmuniz).
JMB na internet
- “Aquarelas do Brasil I” (2005) - Primeira das três versões, na qual, diante da Coluna de Cristal de Francisco Brennand, o ator Vavá Paulino ensaia uma dança extemporânea.
- “Aquarelas do Brasil II e III” (2005) - Segunda e terceira versões de um texto sobre o abismo do Brasil contemporâneo, utilizando-se fragmentos de filmes em Super-8: “Olho Neles, Glauber por ele mesmo” e “Noturno em Ré-cife Maior”. Realizado em parceria com Edson Vilar.
- “Vivencial I” (1974) - Pela câmera Super-8 de Carlos Cordeiro, uma trupe de atores do Teatro Vicencial de Olinda, exercita o mito da androginia. Nas escadarias da Igreja de São Pedro, um simulacro de orgia místico-pedagógica.
- “Uma Experiência Didática” (1974) - Visão totalizante e fragmentada de corpos. Uma sala de aula imaginária. A nudez sensitivo-pedagógica.
- “Toque” (1975) - Transpirado na música de Caetano Veloso, “Pelos Olhos”, uma elegia ecológica no corpo de uma atriz e dois atores. A inocência glamourosa da nudez.
- “Inventário de Um Feudalismo Cultural” (1978) - Ensaio de crítica da cultura percorrendo monumentos, academias, palácios e fundações entre o Recife e Olinda. Intervenções do Grupo Vivencial.
- “Jogos Frutais Frugais” (1979) - Dialogando com pinturas de Sérgio Lemos em ambientação de frutas, a atriz Ivonete Melo, com seu rosto de diva de cinema clássico, exercita entre moscas o princípio do prazer.
- “O Palácio Degolado” (1976)
- “Tao e Tão: Quem É Ela” (1996)