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A Gazeta - Cuiabá - MT A Gazeta - Cuiabá - MT
21/03/2007 - 09:10

Filtros de coar café viram peças exclusivas
Em formatos e utilidades variadas, que vão de caixas a bolsas, os objetos ganham bordados que contam a história das artesãs e do bairro onde vivem

Luiz Fernando Vieira, com Agência Sebrae

Bijouterias artesanais e delicadas com bordados e sementes estão entre os objetos mais procurados
Duas características do mundo atual estão fazendo com que se crie produtos exclusivos que estão conquistando cada vez mais pessoas em todo o mundo. Uma delas é a preocupação com a destinação do lixo doméstico, a outra é a busca por algo diferente, exclusivo. Por isso é cada vez maior o número de peças, sejam para decoração ou ornamento, feitas com materiais como filtros de papel para coar café. Aliando-os a caixas de leite longa vida, artesãs do Jardim Renascer, em Cuiabá, estão criando belas peças que fazem sucesso onde chegam.

O grupo, composto por quatro mulheres, hoje trabalha numa coleção própria que, além dos apelos visual e ecológico, registra uma parte da vida dos moradores daquele bairro. Denilza Alves de Assunção Teles, de 37 anos, explica que depois de um curso ministrado pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), elas resolveram incrementar a produção. Trabalharam em novas peças, melhoraram as que já faziam e criaram uma coleção chamada Nossa História.

Com a utilização de bordados elas registram em caixas, bolsas, capas de almofada, sacos para embalagem e bijuterias os ícones, fatos, lembranças e aspectos do bairro. Estão lá, impressos, os jogos de futebol da molecada, o córrego do Barbado, peixes, as casas, crianças brincando, brincadeiras.

Por meio da bordadura mostram inclusive a evolução do bairro, que começou como uma invasão. Os barracos viraram casas de alvenaria, onde hoje há uma ponte - no mesmo Barbado - havia uma pinguela que obrigava os moradores a fazer verdadeiros malabarismos para poder atravessar para o vizinho Pedregal. O curso d"água é mostrado como antes, límpido e cheio de vida animal. "A gente está aqui desde o começo, o trabalho conta muita coisa que já passou", lamenta Nilza, como é mais conhecida.

Formado ainda por Dorinda Silva Alves (60), Priscila Borges Zaqui (20) e Zenilda Martins de Almeida (21), o Grupo de Trabalho Renascer viu que poderia criar peças artísticas com o que para muita gente é lixo. Pegam caixas de leite longa vida e filtros de café de papel e transformam em bolsas dos mais variados tamanhos e estilos, caixas e bijuterias que dificilmente encontrarão par no mundo. São únicas pelo simples fato de que não dá para fazer uma igual à outra, da mesma forma que não dá para fazer com que um filtro tenha as mesmas manchas de outro. É justamente essa falta de regularidade, de padrão que faz com que as peças sejam sucesso. As caixas que não levam uma cobertura de verniz ficam comum aspecto muito parecido com o do couro de boi.

Cada uma das integrantes do grupo, com suas vivências e gerações diferentes, leva uma idéia. "Cada uma tem um talento especial, vamos juntando umas com as outras. É tudo da cabeça", garante Nilza. De fato, não há um bordado copiado, é tudo nascido ali mesmo, pois elas colocam nas caixas e panos muito do que lembram, do que vêem no seu dia-a-dia. É isso que dá às peças uma cara própria, inédita.

A coleção Nossa História vem sendo desenvolvida há oito meses, depois de um curso de reciclagem do Sebrae. Até então, era um trabalho mais rústico. Hoje, até a costura mudou, ganhou um aspecto mais leve, delicado. Aprenderam também que as pessoas procuram muito embalagens diferentes para colocar presentes. Então surgiram as caixas. A procura é grande, dizem. Só não é maior do que a procura por bijuterias, também feitas com filtros, mas com acréscimo de bordados e sementes. Lembram da última vez que expuseram, no Centro de Eventos do Pantanal, quando venderam todas as peças. E para gente de várias partes do Brasil e do mundo.

O grupo não tem ponto fixo de venda, mas não desperdiça oportunidade. As artesãs vão a todos os eventos que forem convidadas e têm participado do Prefeitura em Movimento. O trabalho delas tem o apoio do executivo municipal e da Fundação Alphaville. Trabalham no Centro de Referência Socioambiental e Cultural Cuiabano, resultado de um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) entre as duas partes. No local encontram toda a infra-estrutura necessária para trabalhar e até já estão ministrando cursos para multiplicar o que aprenderam.

"É uma sensação muito especial para a gente. Não imaginávamos que a caixa de leite e o filtro iam dar para fazer tudo isso", revela Nilza. Agora, festejam, já podem andar com as próprias pernas. "A gente vende, tira o da matéria-prima, o da associação e divide o restante, o que é vendido no mês", frisa a artesã.

O trabalho do grupo tem conquistado até empresárias. Elas contam que uma mulher já fez umas três ou quatro encomendas só para levar bolsas exclusivas para as "baladas". O resultado é sucesso por onde anda. "Ela queria porque era uma coisa diferente, que ninguém teria igual", explica Nilza.

Mais reciclagem

Em outras partes do país, iniciativas como as do Grupo de Trabalho Renascer, de reaproveitamento de filtros de café usados, estão conquistando mercados inclusive internacionais. Em Carangola (MG), as arandelas, luminárias e abajures da artesã Simone Oliveira já são famosas. São vendidas para todo o Brasil, o que fez com que ela fosse uma das vencedoras do prêmio Top 100 Artesanato, promovido pelo Sebrae. O papel é preparado e as peças prontas embaladas em uma oficina, onde as luminárias são feitas. Em épocas de muitas encomendas, outros 20 artesãos ajudam a dar conta do recado.

O trabalho artesanal utilizando o papel de filtro para coar café reciclado também mudou a vida de dezenas de mulheres do projeto de assentamento federal São José de Pedregulho, no município de Ceará Mirim (RN), distante 45 quilômetros de Natal. As artesãs fizeram um trabalho diferente de revestimento de garrafas que servem para o envase de cachaça artesanal. O aspecto caiu em cheio no gosto de um empresário que havia um bom tempo procurava um diferencial para os vasilhames.

Serviço

Quem quiser mais informações sobre o trabalho das mulheres do Renascer pode ligar para o 3027-3968.

 
 
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