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Diário do Nordeste - CE Diário do Nordeste - CE
07/07/2010 - 10:30

Navegar é preciso
Sobrado da Nunes Valente, 1248, já nem parece a oficina de experimentos que costuma ser o ateliê do pintor Vando Figueiredo

Natercia Rocha

Os novos trabalhos de Vando Figueiredo são, ressalta o artista, registros tanto de esboços, quanto de memória.

"Portugal tem uma luz encantadora, com sol limpo, poucas nuvens, céu puro.

Uma vez, retornando de um passeio, vi, saindo por entre ruínas na estrada, uma luz ocre com violeta.

Aquelas cores ficaram na memória até hoje, só tinha visto aquilo em quadros.

Foi quando entendi de onde alguns artistas impressionistas tiravam suas cores.

Daí, de outra vez, expondo ali no bairro da Graça, em Lisboa, numa tarde de outono, consegui ver a mesma cintilância de luz. Rapidamente fiz um esboço e, hoje, estão aqui os quadros", conta Vando.

Nos 18 acrílicos sobre tela e nas 12 aquarelas, estão abstrações urbanas da arquitetura moura, o colorido alegre de vilarejos da região do Algarve, a rotina de cidades como Porto, Cascais, Lisboa, Fátima, Estoril, Caldas da Rainha, Silves e Figueira da Foz.

"Sou um artista essencialmente figurativo, mas há muita abstração, muita carga de emoção do expressionismo no meu trabalho.

Algumas pessoas confundem abstração com pintura informal, ocasional, sem propósito.

Mas, quando um artista se propõe a fazer abstratos, é porque chegou à maturidade plena, esgotou o que precisava colocar para fora", considera.

Mas a exposição intitulada "Vando mostra Portugal" é só a ponta do iceberg do que vem por aí.

Embaixo das águas, aparentemente calmas, está em plena ebulição o início de um novo desafio pessoal: representar o Brasil no 18º Internacional Workshop for Visual Artist in Brande, que acontece de 18 a 30 de julho, na Dinamarca, promovido pela fundação cultural Foreningen Kulturremisen.

Reconhecido mundo afora pelas pinturas cuja temática são registros rupestres dos homens das cavernas, Vando ficará em Brande em interação com produtores contemporâneos de Alemanha, Polônia, China e Japão, além da Dinamarca, trocando experiência e tecnologia.

Abstração rupestre

"Pretendo ir à Dinamarca fazer uma mescla de diversos sítios históricos encontrados no mundo todo, como o de Altamira (Espanha), Lascaux (França), Sete Cidades (Brasil) e outros. Essa pesquisa é interessante porque parece que o homem pré-histórico brasileiro estava conectado pela internet com os da Austrália", sublinha.

"O que difere mesmo são os animais. Enquanto na Noruega eles registravam ursos, os nossos pintavam capivaras. Mas a questão da escrita, da assinatura, a digital do artista da pré-história, a simbologia das mãos, a sobreposição de pés, é quase universal. Até nos traços da pintura abstrata, porque existe abstração na pintura rupestre. É tudo muito curioso".

Durante o período em que estiver no país nórdico, Vando Figueiredo, que segue em companhia do amigo, e também artista plástico, Fernando França, deverá produzir dez quadros, no tamanho de 1m50 por 1m50.

"Há 16 anos visito Portugal regularmente, e isso tem resultado em intercâmbios de conhecimentos, em abertura para novas oportunidades", destaca.

Preparando a viagem

"Os quadros em homenagem a Portugal foram feitos em 2009 e 2010. Nessa exposição, onde também pretendo levantar verba para a viagem, os preços dos quadros estarão bem acessíveis para amigos que vêm colecionando. Primeiro porque estou fazendo no meu ateliê, sem custo de galeria e outras despesas. Tem obras de R$ 100 a R$ 6 mil", detalha Vando, citando que as despesas com estadia na Dinamarca serão bancadas pela produção do encontro.

Como contrapartida do 18º Workshop for Visual Artist da cidade de Brande, os artistas participantes devem, além de doar uma obra para a organização do evento, participar de oficinas e repassar conhecimentos e técnicas utilizados nas obras produzidas por lá.

"Quero inserir elementos do local. O que ficará do Brasil serão as cores e meus gestos. Utilizo muito a técnica mista. Se um pincel não me serve mais, ele pode ir fazer parte da tela, que também pode ter um maço de cigarro, um bilhete de viagem... Sempre ficam memórias. Minha tela serve como diário", aponta, traçando um paralelo com outro artista brasileiro contemporâneo.

"Fiquei fascinado pelo trabalho do Vik Muniz, pela técnica e pela sacada artística. Ele é genial! Mas tem jovens bons passando despercebidos, por falta de investidor para o artista emergente. Não existe um descobridor de talentos aqui. Mas espero que Deus ilumine para que a gente possa representar nossa arte da melhor forma".

Trajetória

Nascido em Cajazeiras-PB, filho de pais paraibanos e com nove irmãos, Gilvando Furtado Figueiredo veio aos dois meses de idade para Fortaleza.

"Meu pai fazia calçados e chegou aqui para desbravar a cidade. Isso era 1952. Ele achava que Pernambuco estava muito explorado. Mas me batizei aqui, minha infância foi ali na Parquelândia, onde minha mãe mora até hoje", conta o artista. "Aliás, depois dos 80 anos, ela se revelou uma grande artista.

Na Unifor Plástica de 2007 arrebanhou o prêmio de melhor pintora. Colocou todos nós no bolso", brinca.

"O primeiro suporte em que lembro ter pintado era um móvel antigo de minha avó. Eu era criança, tinha um amigo adulto pintor. Ele me presenteou umas bisnagas, uns pinceis... Fiz uma paisagenzinha pura, liberta. Não sei se ainda existe,gostaria de reencontrá-la".

Frases

Tive em sociedade uma empresa que chegou a ter três mil funcionários. Há 10 anos larguei tudo para viver de arte"

'É angustiante, mas isso é geral. Tenho amigos angustiados em Paris, Lisboa, Espanha. As pessoas precisam ver o peso que a arte tem na vida delas"

Vando figueiredo

Artista visual

Mais informações:

"Vando mostra Portugal". Abertura da exposição hoje, às 20h, no ateliê do artista Vando Figueiredo (R. Nunes Valente,1248-A, Aldeota).

Visitação de 8 a 14 de julho, das 14h às 21 h. Contatos: 3224.7578 ou www.vandofigueiredo.com

 
 
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