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Correio Braziliense - DF Correio Braziliense - DF
31/05/2010 - 10:30

Cineastas de sonhos
Na trama do curta, um menino, cercado de amigos, acompanha pela janela a vizinhança dele

Ricardo Daehn

Fabiula Vasconcelos/Divulgação
Cena do filme Sonhando passarinhos, de Bruna Carolli: olhares urbanos
“Pingando, sem casa própria”, por um bom tempo, o cineasta Alex Vidigal, filho de comerciantes, sempre teve o Conic como “referência de casa”.

Foi lá que ele ambientou um dos nove episódios da série experimental para a internet É Noixx, que explorou, com sucesso, espaços de Ceilândia, do Núcleo Bandeirante de Taguatinga e do Guará.

O interesse por áreas diversas foi decisivo na produção do vídeo O filho do vizinho, que em andamento, ao lado de Sonhando passarinhos (de Bruna Carolli), tem azeitado a produção audiovisual em Taguatinga, por meio de fomento (no caso, de R$ 60 mil para cada um dos curtas) viabilizado pelo FAC (Fundo de Apoio à Cultura).

“Reconheço no Gama e em Taguatinga e Sobradinho, por exemplo, uma autonomia que é muito parecida. Isso me fascinou muito: as pessoas podem passar meses sem vir ao Plano, porque encontram tudo por lá”, observa Alex, crescido no Plano Piloto e atualmente professor de audiovisual na Universidade Católica de Brasília (Taguatinga).

Aos 29 anos, o diretor reviu o passado, à medida em que avançaram as gravações (encerradas ontem) de O filho do vizinho.

“O projeto nasceu inspirado no espaço e na vivência. Queremos revelar outra faceta, então, o adulto, muitas vezes, até aparece, mas cortado, como nas obras referenciais da infância, como Tom & Jerry e Muppet Babies. Por que não aplicar isso nos filmes? Se os pais estão em cena, eles não concentram toda a expressão”, observa.

Na trama do curta, um menino, cercado de amigos, acompanha pela janela a vizinhança dele. “Falaremos do fascínio pelo que é visceral, típico da criança que exerce a liberdade, sendo capaz de tudo. Elas têm as respostas mais inusitadas — são seres pensantes dos quais se pode esperar qualquer coisa”, comenta. Na lida com elenco que inclui Andrade Júnior e Lauro Montana, Alex Vidigal conta com a preparadora infantil Fernanda Rocha, no “desafio” de comandar crianças no set, entre elas, Ian Bauer (A obscena senhora D).

Ao aceitar o suporte digital de vídeo como “uma abertura estética, e não uma bitola”, o diretor promete trazer para a produção maior refinamento fotográfico. Para tanto, contará com profissionais como André Luís da Cunha e o diretor de arte conhecido como Bandinha.

Depois de incursões por vídeos etnográficos, filmes institucionais e outros documentários, a ficção vai propiciar o jocoso sonho de fazer “um Yasujiro Ozu (mestre do cinema japonês) à la Hanna Barbera”. “Quero a câmera mais estática e rente ao chão, como a que Ozu, um cineasta que lida muito bem com a infância, propunha”, explica Alex Vidigal.

Traços familiares

A admiração pela obra de Yasujiro Ozu não é o único vínculo entre os diretores dos curtas O filho do vizinho e Sonhando passarinhos: “filmes irmãos”, como classifica Alex Vidigal, eles investem no segmento infantojuvenil, com visões de jovens diretores que recriam experiências pessoais. Não por acaso, Bruna Carolli e Alex Vidigal são namorados e ele montará o filme de Bruna. “As filmagens foram tão orgânicas que quero ver tudo, detalhadamente, para depois organizar o trabalho”, comenta Alex. Com dois curtas universitários na bagagem, Bruna comemora a estreia em esquema profissional.

“Pensei: do que tenho propriedade, a ponto de ser uma narradora? O roteiro me ajudou a construir um mundo que não existiu quando eu era criança. Trouxe enxertos para aquilo que realmente fez parte da minha história”, comenta a diretora.

Com direito a trecho de animação assinado por Leonardo Catapreta, Sonhando passarinhos registra o caminho de casa feito por Sofia (Wendy Martins), que fica impressionada com os três passarinhos pousados no varal na casa de uma japonesa. Daí, ela passa à caça dos próprios bichos de estimação. Moradora de Taguatinga e estudante da Católica, Bruna pretende ativar recordações do público com o filme.

“Não quero apenas que as crianças se reconheçam, mas quero dar a capacidade de o adulto se identificar. Vejo o filme como traço de continuidade dos meus outros trabalhos, em que a memória foi um elo, como aconteceu no documentário Memórias do cinema”, explica.

 
 
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